Houve
um homem que viveu há muitos séculos e que não apenas brilhou em
sua inteligência, mas era dono de uma personalidade intrigante,
misteriosa e fascinante. Ele conquistou uma fama indescritível. O
mundo comemora seu nascimento. Todavia, apesar de sua enorme fama,
algumas áreas fundamentais da sua inteligência são pouco
conhecidas. Ele destilava sabedoria diante das suas dores e era
íntimo da arte de pensar. Esse homem foi Jesus Cristo.
A
história de Cristo teve particularidades em toda a sua trajetória:
do nascimento à morte. Ele abalou os alicerces da história humana
através de sua própria história. Seu viver e seus pensamentos
atravessaram gerações, varreram os séculos, embora ele nunca tenha
procurado status social ou político.
Ele
cresceu sem se submeter à cultura clássica do seu tempo. Quando
abriu a boca, produziu pensamentos de inconfundível complexidade.
Tinha pouco mais de trinta anos, mas perturbou profundamente a
inteligência dos homens mais cultos de sua época. Os escribas e
fariseus – que possuíam uma cultura milenar rica, eram intérpretes
e mestres da lei – ficaram chocados com seus pensamentos.
Sua
vida sempre foi árida, sem nenhum privilégio econômico ou social.
Conheceu intimamente as dores da existência. Contudo, em vez de se
preocupar com as suas próprias dores e querer que o mundo gravitasse
em torno das suas necessidades, ele se preocupava com as dores e
necessidades alheias.
O
sistema político e religioso não foi tolerante com ele, mas ele foi
tolerante e dócil com todos, mesmo com seus mais ardentes
opositores. Cristo vivenciou sofrimentos e perseguições desde a sua
infância. Foi incompreendido, rejeitado, zombaram dele, cuspiram em
seu rosto. Foi ferido física e psicologicamente. Porém, apesar de
tantas misérias e sofrimentos, não desenvolveu uma emoção
agressiva e ansiosa; pelo contrário, exalava tranqüilidade diante
das mais tensas situações e ainda tinha fôlego para discursar
sobre o amor no seu mais poético sentido.
Muitos
autores, ao longo dos séculos, abordaram Cristo em diferentes
aspectos espirituais: sua divindade, seu propósito transcendental,
seus atos sobrenaturais, seu reino celestial, sua ressurreição, a
escatologia (doutrina das últimas coisas), etc. Quem quiser estudar
esses aspectos terá de procurar os textos desses autores, pois a
análise da inteligência de Cristo o investiga de outra perspectiva,
de outro ângulo.
Este
livro faz uma investigação talvez jamais realizada pela ciência da
interpretação ou pela psicologia. Investiga a singular
personalidade de Jesus Cristo. Analisa o funcionamento da sua
surpreendente inteligência. Estuda sua arte de pensar, os meandros
da construção de seus pensamentos nos seus focos de tensão.
A
inteligência é composta de muitos elementos. Em síntese, ela se
constituida construção de pensamentos, da transformação da
energia emocional, do processo de formação da consciência
existencial (quem sou, como estou, onde estou), da história
inconsciente arquivada na memória, da carga genética. Aqui
definirei a personalidade como a manifestação da inteligência
diante dos estímulos do mundo psíquico, bem como dos ambientes e
das circunstâncias em que uma pessoa vive. Todo ser humano possui
uma inteligência, mas nem todos desenvolvem suas funções mais
importantes.
Durante
as quase duas décadas em que tenho pesquisado o funcionamento da
mente, a construção da inteligência e o processo de interpretação,
posso afirmar com segurança que Jesus possuía uma personalidade
bastante complexa, muito difícil de ser investigada, interpretada e
compreendida. Este é um dos fatores que inibiram a ciência de
procurar investigar e compreender, ainda que minimamente, a sua
inteligência.
Analisar
a inteligência de Jesus Cristo é um dos maiores desafios da
ciência. Após ter desenvolvido os alicerces básicos de uma nova
teoria sobre o funcionamento da mente, comecei a me envolver nesse
enorme e estimulante projeto que é investigar a personalidade de
Jesus. Foram anos de estudo, em que procurei, dentro das minhas
limitações, fugir das respostas aleatórias e das explicações
científicas superficiais.
Interpretar
a história é uma tarefa intelectual das mais complexas. Significa
reconstruí-la e não resgatá-la de maneira pura. Reconstruir os
fatos, ambientes e circunstâncias do passado é um grande desafio.
Se o leitor tentar resgatar as suas experiências mais marcantes,
verificará que isso frequentemente reduz a dimensão das dores e dos
prazeres vividos no passado. Estudaremos este assunto. Todo resgate
do passado está sujeito a limitações e imperfeições. Este livro,
que é um exercício de interpretação psicológica da história,
não foge à regra.
Se
interpretar a história é uma tarefa intelectual complexa e sinuosa,
imagine como deve ser difícil investigar a inteligência de Cristo,
os níveis de sua coerência intelectual, sua capacidade de gerenciar
a construção de pensamentos, de transcender as ditaduras da
inteligência, de superar as dores físicas e emocionais e de abrir
as janelas da mente das pessoas que o cercavam.
Jesus
possuía uma personalidade difícil de ser estudada. Suas reações
intelectuais e emocionais eram tão surpreendentes e incomuns que
ultrapassam os limites da previsibilidade psicológica. Apesar das
dificuldades, é possível viajarmos por algumas avenidas
fundamentais do seu pensamento e compreendermos algumas áreas
importantes da sua inteligência.
(Leia
mais na coletânea de livros Analise da Inteligência de Cristo, do
escritor Augusto Cury)
.jpg)


